Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (77)

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O MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE

Também eu, fazendo jus a uma certa ingenuidade que parece caracterizar-me, participei na votação para a eleição do maior português de sempre. O meu preferido foi o Infante D. Henrique.
Pensava que a maioria dos portugueses, em particular a maioria dos que participariam em tal eleição, se lembraria um pouco de alguns pedaços da nossa história, e concluísse que, do período e dos feitos em que Portugal foi efectivamente grande, tudo ficou a dever-se à obra do Infante D. Henrique.
Muitos dos que foram seleccionados para o grupo dos primeiros dez, e que são efectivamente grandes, foram-no na esteira do Infante. D. João II foi um grande português porque deu luz verde à empresa dos descobrimentos. Vasco da Gama foi um grande português porque deu execução prática às teorias traçadas pelo Infante. Luís de Camões foi também um grande português porque relatou, de forma extraordinária, os feitos de Vasco de Gama, e toda a epopeia dos descobrimentos. Tudo no prosseguimento das teses e dos projectos delineados pelo Infante, materializados no funcionamento da Escola Náutica de Sagres.
Porém, a maioria dos portugueses que participou em tal eleição, votou em António de Oliveira Salazar (41%), Álvaro Cunhal (19%) e Aristides de Sousa Mendes (12%). Em minha modestíssima opinião, o voto em António de Oliveira Salazar, que além de ser o primeiro, ficou largamente destacado do segundo, com mais do dobro dos votos, resulta de duas categorias de opções: terá havido aqueles que votaram, pura e simplesmente, contra o concurso, e fizeram-no, como é evidente, votando no candidato que poderia gerar mais polémica, o objectivo foi claramente alcançado; terá havido outros que votaram contra o actual estado da arte, contra o actual estado da situação politica, em particular contra os políticos que se têm movimentado na cena política portuguesa, nos últimos tempos, estes também conseguiram o seu objectivo, pese embora o facto de o choque provocado não ser tão evidente.
No que respeita à segunda opção, referida no parágrafo anterior, parece-me ser de relevante importância, não perder de vista, que a maioria dos portugueses, não apenas os que participaram em tal eleição, mas a maioria de todos nós, ainda reconhece algumas virtudes no cidadão António de Oliveira Salazar, como político, virtudes que muitos dos políticos dos tempos mais recentes não têm demonstrado. Refiro-me à honestidade. Neste particular, tanto Oliveira Salazar, o primeiro classificado, como Álvaro Cunhal, o segundo classificado, somam largas medidas de pontos. Oliveira Salazar, que morreu há mais de três décadas e meia, e ainda nenhum investigador conseguiu acusá-lo de se ter locupletado fosse com o que quer que fosse. Todos os relatos dizem que teve uma vida simples e desprendida da maior parte dos bens terrenos. Relativamente a Álvaro Cunhal, desaparecido mais recentemente, também não consta, nem parece poder vir a constar-se, que a sua honestidade, como cidadão, venha alguma vez a poder ser posta em causa.
Não é preciso ser-se um grande psicólogo, ou um grande analista político, para concluir que o concurso, em si mesmo, se traduziu num dos maiores fracassos em termos de programas televisivos. Foi com uma boa dose de desconforto que me aguentei assistindo às argumentações e ao descontentamento da Deputada Dra. Odete Santos. Poderia não me ter sujeitado a tal, e mudar muito simplesmente de canal, mas fi-lo exactamente para poder escrever estas linhas com conhecimento de causa, isto é, poder comentar e criticar.
Foi dito, pela apresentadora do programa, que concursos idênticos já tinham ido para o ar noutros países, como o Reino Unido, por exemplo, e que os resultados verificados também foram “surpreendentes”, surpreendentes pela negativa, parece poder inferir-se. E assim, também parece ser lícito colocar a interrogação: se há uma espécie de programa, cujos resultados verificados, noutros países, foram surpreendentes pela negativa, porque é que se repete o erro? Conclua e responda quem souber…
Ainda a propósito de erros, parece existir um movimento de pseudo iluminados que pretende desenterrar os ossos de D. Afonso Henriques, para realizar não sei que espécie de testes. Temo que esses tais pseudo investigadores cheguem à pseudo conclusão, de que D. Afonso Henriques não era D. Afonso Henriques. Aproveito para apelar à ministra da cultura, Sua Excelência Isabel Pires de Lima, que tão exigente se tem mostrado em casos que, em bom dizer, dispensariam tais excessos de zelo, neste particularíssimo caso, tenha o bom senso de não autorizar, de uma vez por todas, tal espécie de investigações.
Era só o que nos faltava agora, o risco de, por via de uma qualquer estranha teoria, virmos a perder o orgulho que temos do nosso Primeiro Rei!

Por: José Costa Oliveira

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