Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

- Vitelas? Bem vez, Malvininho, que são duas flores de vacas. É a primeira vez que criam, mas já estão com três meses, e trabalham como duas vacas velhas. Isto é material de primeiríssima qualidade.
O Senhor Paulo era uma daquelas pessoas do campo que, não obstante ter já mais de setenta anos feitos, ter passado uma vida inteira de trabalho duro, com muita fome de permeio, sobretudo quando era jovem, tinha um ar alegre e muito saudável. Não era alto, devia medir um metro e sessenta e poucos centímetros, usava bigode que agora estava bastante grisalho, mas ainda não totalmente branco, um colete com um relógio de bolso seguro por uma corrente de ouro amarelo, que ligava uma das casas dos botões ao bolso do lado direito. Usava chapéu com a aba de trás levantada e a da frente vergada para baixo, um pouco sobre os olhos, mas sempre ligeiramente inclinado sobre a orelha direita. Uma vara de marmeleiro, a brilhar de amarelo, e de cerca de metro e meio de comprimento, ele costuma segurar o seu queixo sobre a ponta da vara, pondo a mão de almofada para evitar ferir-se no aguilhão. Na frente das vacas encontrava-se um rapaz de cerca de quinze anos, que era moço de servir, e já estava naquela casa desde os dez, sem nunca ter ido à escola.
O Senhor Malvino, continuou:
- Está bem, está bem Senhor Paulo, as vaquinhas não são nada más, não senhor; mas a verdade é que já as trás à feira por três semanas seguidas e ainda não conseguiu vendê-las. Mas, não interessa, quanto pede por elas?
- Para amigos são setenta notas de cem, são sete contos de réis.
- Ah não, aposto que na segunda-feira passada nem seis contos lhe ofereceram.
- Estás enganado, e muito enganado. Quisesse eu aceitar e já as tinha vendido, há mais de um mês, por seis contos e meio, o mesmo que é dizer, por sessenta e cinco notas.
- Sessenta e cinco notas? Não Senhor Paulo, por esse valor já não somos compradores. Olhe, elas são aqui para este rapaz, o Manuel Carlos, que começou a semana passada a granjear a lavoura da Eirinha, ali quem vai de Chacim para Boadela, e o patrão, o Senhor Joãozinho, recomendou-me que o ajudasse na compra de uma junta de vacas em condições. Estas, de facto, parecem-me boas, mas o preço está ainda muito acima daquilo que elas realmente valem.
Entretanto, já se verificava um pequeno ajuntamento de observadores. Uns davam opinião de que a oferta estava correcta. Mas, afinal de contas ainda não tinha havido oferta, o Senhor Paulo pedira setenta notas de cem, e o Senhor Malvino alvitrara que na segunda-feira passada nem seis contos teria tido de oferta, ao que o Senhor Paulo ripostara que, se quisesse, já as teria vendido por seis contos e meio. Estabeleceu-se alguma confusão entre os assistentes. Tentou remediar a situação um negociante de gado que era de Aboim, concelho de Fafe, e dedicava-se mais à compra de vitelos para os marchantes. Era conhecido pelo apelido, ou alcunha, não se sabe muito bem, de Torrinheiras, e trazia sempre um grande maço de notas num dos bolsos das calças. De todas as vezes que apalavrava um vitelo, sacava do maço de notas do bolso das calças, tirava aquelas que constituíam o preço e forçava o vendedor metendo-lhe as notas amarfanhadas nas mãos e, quando estes resistiam, metia-lhas no bolso e seguia em frente. Ao fim de dez ou quinze passos voltava para trás e certificava-se se o vendedor aceitava ou não o negócio.
O Torrinheiras conhecia todos os caseiros e todos os lavradores que por qualquer razão compravam ou vendiam gado bovino. Tratava todos pelo nome próprio e por tu. Tendo tomado nota do ponto em que ia a discussão, dirigiu-se para o Senhor Malvino e disse-lhe:
- Ò Malvino, afinal de contas estás para aí a botar conversa mas parece que ainda não fizeste qualquer oferta. Quanto é que dás pelas vacas ao homem? Olha que elas estão prenhes de três meses, trabalham bem e estão aí bem luzidias, pelo que, quanto a comer, parece que também não terão má boca. Não te esqueças de que, nisto de gado para criar, a boca é o elemento mais importante. Quer-se gado que coma de tudo e coma bem. Mas, voltando à primeira forma, a propósito de forma, não te esqueças de que eu fui tropa no treze de Vila Real, quanto é que ofereces pelas vitelas, como lhes chamaste há bocado?
O Senhor Malvino chamou o Manuel Carlos um pouco ao lado e segredou-lhe ao ouvido:
- Olha meu rapaz e bom amigo, isto são na verdade duas pérolas de vacas, eu acho que com a ajuda do Torrinheiras poderemos comprá-las aí por umas sessenta e oito notas, para tanto oferecemos sessenta e seis, já que ele pede setenta, daí vem o Torrinheiras que ao seu estilo proporá que se divida a diferença ao meio.
O Manuel Carlos respondeu que sim senhor, que ele, o Senhor Malvino, saberia melhor do que ninguém a melhor maneira de realizarem o negócio.
Então o Senhor Malvino dirigiu-se ao Torrinheiras, chamava-se Domingos Torrinheiras, e disse:
- Senhor Dominguinhos, como reparou, estive a trocar impressões aqui com o meu jovem amigo, que no final de contas é o verdadeiro comprador, e estamos na disposição de oferecer sessenta e seis notas de cem por esta junta de vacas.
O Torrinheiras dirigiu-se para o Senhor Paulo e disse:
- Como acabas de ouvir, eles estão a oferecer-te sessenta e seis notas, tu pedes sete contos, eu ando aqui para fazer os meus negócios, mas comigo é mais à base de vitelos para os marchantes. Neste caso quero é ajudar, parece-me que o valor mais justo será partir-se a diferença ao meio. Não são sete contos, nem são seis contos e seiscentos. São sessenta e oito notas.
(continua-11)

Por: Torcato Santiago

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