Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-05-2007

SECÇÃO: Crónica

CARTA DE AMOR E GRATIDÃO À TERESINHA DA SOBREIRA TAMBÉM CONHECIDA PELA TERESINHA DA CASA DE LAMAS
MULHER ... ESPOSA ... E ... MÃE EXEMPLAR

Senti um vazio enorme no coração e uma saudade imensa de alguém que havia partido. Desci à garagem, meti-me no carro, coloquei um CD que me tinham oferecido com a mensagem ... música para a alma e pus-me a caminho. Percorridos alguns quilómetros estacionei o carro e revivi dolorosos momentos passados naquele local.
Depois em passos lentos subi as escadas do prédio até ao segundo andar. Toquei a campainha e alguém veio abrir. Dei-lhe um beijo e após alguns minutos de conversa disse-lhe: Trouxe pão fresco e bolinhos para o nosso lanche.
Preparamos um chá e as duas saboreamos aquele momento.

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Terminado o lanche passamos da cozinha para a sala e aí pedi-lhe que me falasse do seu passado.
Antes foi ao quarto e trouxe nos braços dois enormes álbuns de recordações, com as fotos de família.
Peguei numas folhas de papel, numa caneta e fui tomando algumas notas. De vez em quando olhava para ela e fazia um enorme esforço para não me deixar comover. Os seus cabelos cor de prata, o seu olhar terno, o seu lindo rosto bordado pelos anos passados e a força que deixava transparecer em tudo o que dizia era de tal modo envolvente que me esqueci do tempo que passou.
Serenamente começou por me dizer...
Como sabes nasci a quinze de Dezembro de 1928, no lugar de Baloutas, na freguesia de Painzela, em Cabeceiras de Basto ...
Fez uma pequena pausa e continuou ...
O meu pai, Teodoro dos Santos e minha mãe Ana da Glória da Silva Leite, ele filho de Bernardo dos Santos e de Maria Nogueira, ela filha de Custódio Leite e de Teresa de Jesus da Silva, minha madrinha de baptismo, escolheu para mim o seu nome, razão pela qual não assino o nome do meu pai ... e ....
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Mais uma pausa. A emoção era visível e notória no seu olhar e em todas as palavras que pronunciava. Naquele estado de emoção, assim foi contando aos poucos, um pouco do que tinha sido a sua infância desde os tempos da escola primária, em Painzela, Alvite e S. Nicolau / Gondarem. Depois falou-me da Quinta de Lamas e do carinho com que tratavam a sua mãe, conhecida na altura pela Glórinha ou Aninhas da Sobreira. Falou-me ainda do facto de ela, sua mãe, não ter conhecido o pai, seu avó, pois quando ele faleceu, sua mãe Teresa de Jesus da Silva encontrava-se grávida dela, ficando na altura, viúva, grávida e com três filhos. Disse-me também que a sua família tinha sofrido imensos desgostos, pois sua mãe Ana da Glória da Silva Leite, além de não ter conhecido o pai perdeu a mãe por volta dos seus trinta anos de idade. Quanto ao seu pai Teodoro dos Santos, sofreu também ele ainda muito jovem um enorme desgosto, quando em 1917 perdeu a mãe, Maria Nogueira e uma irmã na mesma semana, com a terrível doença que vitimou na altura os pastorinhos Francisco e Jacinta.
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Fez mais uma pausa e com os olhos inundados de lágrimas falou da morte da sua mãe, Ana da Glória com trinta e oito anos de idade, deixando a seu cargo e de seu pai três irmãos para criar. Maria do Céu de onze anos, Gonçalo de seis e Jacinto de cinco. Ela era a mais velhinha dos quatro e contava na altura quinze anos de idade. Falou-me com muita mágoa das últimas palavras pronunciadas por sua mãe poucas horas antes de partir ... Teresa vou morrer toma a minha aliança ... guarda-a é para ti. Depois acrescentou ... se eu não morrer devolves-ma...
Tal não aconteceu porque a vida dela terminou dentro de poucas horas na presença da filha Teresinha. Esta linda mulher de cabelos cor de neve recordou também o que sua mãe imensas vezes lhe pedia ...
Teresa ... trata os meninos por Gonçalinho e Jacintinho, referindo-se aos seus dois irmãos. Com a morte da mãe, uma nova vida começou a partir desse dia para esta menina que a partir daquele momento se tornou numa mulher de tamanho pequenino mas já com um afecto e um sentir de uma mãe com um M muito diferenciado. Assim, de irmã passou a mãe. Mãe de seus irmãos e pouco tempo depois mãe de seus filhos, abraçando no todo o papel que lhe havia sido destinado tão cedo.
Com dezassete anos de idade a Teresinha da Sobreira casou com o conhecido músico da banda Cabeceirense e carpinteiro, Joaquim de Andrade Martins, conhecido na terra pelo Joaquim Marra, descendente da família dos Marras. Joaquim era músico, juntamente com seu pai Francisco de Andrade, seu irmão Manuel e seus primos. Após o casamento Joaquim escolheu para profissão ser Guarda Florestal. Assim e devido à mesma foram morar para S. Nicolau / Cruz junto à ponte de Cerdeiró. Algum tempo depois mudaram-se para Paradança em Mondim de Basto, Pedreira, Vilar de Ferreiros e de novo para S. Nicolau. Devido à profissão do marido a vida deles sofria alterações constantes, não lhes sendo possível permanecer por muito tempo no mesmo local mas sempre de acordo com a sua própria vontade. Assim e de novo iniciaram mais um circulo de mudanças, tendo ido morar para Vilar de Cunhas, Torneiro, Gondiães, novamente Torneiro, Vilar de Cunhas, Costa da Caparica, Trafaria, Costa da Caparica e depois de se ter reformado o mestre Florestal Joaquim de Andrade Martins, passou os últimos anos da sua vida no Monte de Caparica juntamente com a sua companheira de sessenta anos na sua residência, onde acabou por falecer em vinte e sete de Dezembro de 2006. Chegada esta parte o silêncio fez-se sentir entre nós. A conversa que até então tinha sido de certa forma deliciosa, terminou com muita emoção olhando para algumas fotos que nos levaram a reviver tempos passados. No decorrer da mesma, constatei que a vida não lhe tinha sorrido mas que ela tinha sabido sorrir à vida. O modo como falava do seu passado, tinha tanto de sofrido como de belo. Ela tinha dedicado toda a sua vida ao marido e aos onze filhos que deu à luz. O percurso a dois não tinha sido em nada fácil mas eles tinham sabido geri-lo sempre da melhor forma. Juntos tinham sofrido imenso e ultrapassado discórdias e dificuldades, complementando-se no todo e transformando em amor os momentos de tristezas como só as grandes almas o sabem fazer. Daí terem sido sem dúvida alguma um grande homem e uma grande mulher. Dos catorze filhos que tiveram, sete casais, só onze sobreviveram sete raparigas e quatro rapazes. Amaram e ama a todos de igual modo. Não estando estiveram e está sempre presente na vida deles. Deu-lhe asas para voarem mas está sempre atenta ao que se passa nas suas vidas, sem interferir mas com a visível mensagem estampada no rosto ... Estou aqui se precisares de mim. A esta mulher de força foi-lhe dito um dia que o seu companheiro estava de partida. Em vez de chorar ou de se deprimir a Teresinha da Sobreira surpreendeu a todos. Arranjou forças e dedicou-se de corpo e alma ao marido ajudando-o e encorajando-o na doença. Todos os dias participava nos seus cuidados de higiene e outros sempre com uma força tremenda, com uma garra constrangedora.
Para ambos o destino estava traçado e pregou-lhe uma terrível partida. Teresinha sofreu um acidente na sua casa e foi submetida a uma cirurgia de urgência. Quando regressou a casa, não pôde mais ajudar a cuidar do marido, mas arranjou uma forma ainda mais bonita de lhe transmitir que estava de alma e coração com ele. Logo que começou a dar os primeiros passos, com a ajuda dos filhos ia junto do marido e cantava para ele a bonita canção do dorme, dorme meu menino. Ele olhava para ela com os olhos cheios de lágrimas e dizia-lhe ... és tão linda ... és tão linda ...
Momentos cheios de ternura e amor que se repetiram até ao dia em que ele adormeceu no sono eterno.
Ele adormeceu. Teresinha continua linda mas visivelmente magoada. Devido ao acidente que sofreu esta mulher de grande força e coragem não pode participar nas cerimónias fúnebres do marido. Eu, revivo a cada instante o momento em que ela insistiu em chegar junto dele ... quem sabe... Provavelmente para lhe cantar a canção que ele tanto gostava ... e eu, com o coração em chamadas, o peito rasgado e a alma a sangrar, tive que manter toda a calma e que lhe dizer que ele já tinha partido.
Dois gritos de dor profunda soltou agarrada às mãos dele ...
Depois ... depois ... depois fez-se silêncio ... silêncio ... silêncio ...
Hoje frágil como um cristal, recorda também ela tudo isto e deixa transparecer uma grande mágoa em tudo o que diz. Deus abençoou-a à nascença e ela soube transmitir no todo essa benção aos seus filhos amando-os incondicionalmente.
Terminada a nossa conversa ... não sei o que senti ...
Por momentos fechei os olhos.
Por momentos senti que estava a sonhar.
Por momentos o meu coração gritou em silêncio e no silêncio fiquei.
Estava tudo dito. Por mil palavras que eu lhe disse-se...
Por mil palavras que eu escreva. Nunca iria descrever o que foi e quem é esta mulher.
Hoje recordo o momento em que lhe perguntei:
Sente a falta dele?... Silêncio ... silêncio ... e mais silêncio ...
Depois ... respondeu-me com um deixar cair de lágrimas, permanecendo no silêncio.
Percebi. Despedimo-nos. Desci as escadas e entrei de novo no carro. Coloquei novamente o CD e deixei também eu cair um cordão de lágrimas ao mesmo tempo que pronunciei ... meu pai ... meu pai... .
Com a alma ferida, aconcheguei as minhas mãos de encontro ao peito e com a mesma emoção disse ... mãe ... querida mãe ...
Abri os olhos que mantinha à alguns minutos fechados e disse para mim mesma. Tudo isto não é um sonho. Tudo isto é real. Eu tinha acabado de descobrir aquilo que sempre senti. Eu tinha acabado de perceber que tive sem dúvida alguma os melhores pais do mundo. Nesse momento os meus pensamentos viajaram para um tempo que eu não vivi.... A infância daquela mulher e fiquei mais ferida do que já estou por tudo o que ela tem sofrido. Voltei de novo à realidade e arranjei forças para fazer isto, para gritar e dizer ao mundo algo que não posso guardar só para mim ...
Não seria justo. Não seria correcto. O mundo tem que saber. As meninas da sua geração têm que ter conhecimento do que é feito dela. Quem foi e quem é esta grande mulher. Esta grande Senhora. Ela não é apenas a Teresinha da Sobreira ou a Teresinha da casa de Lamas, como é conhecida na sua terra. Esta grande mulher, esta grande Senhora é ... é ... é, sem dúvida alguma para além de tudo isto, uma grande mãe, um coração bondoso, uma grande alma ...
Ela é também ... é ... é, e será para sempre e para motivo de grande orgulho meu ...
A Minha Querida Mãe.
Em nome de todos os teus filhos, meus irmãos digo-te profundamente emocionada ...
Obrigada por seres tão grandiosa e tão bela Mãezinha.
Obrigada e que Deus te proteja.
Com todo o meu amor te dedico estas sentidas palavras como prova de gratidão neste próximo dia da mãe em que só te tenho a ti e que o meu pai já não está na tua companhia mas seguramente a olhar por nós tal como me disse antes de partir.
Obrigada Mãe Querida e não deixes que esse cristal que tens dentro de ti se parta.
Fazes-nos falta. Precisamos de ti para caminhar. Precisamos da tua luz. Precisamos de ti todos os dias. Precisamos do teu colo. Precisamos de ti sempre. Precisamos de ti. Precisamos de te dizer o quanto és linda e dar-te um beijo muito especial no teu dia e dizer-te baixinho, obrigada, obrigada e depois com todo o nosso amor e a onze vozes ao mesmo tempo gritar ...
Amamos-te muito e para sempre querida Mãe.

Tua Filha
Mariana da Silva Martins
Lisboa, 01 de Maio de 2007

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