Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-05-2007

SECÇÃO: Opinião

AS DEZ PERSONALIDADES MAIS IMPORTANTES DA HISTÓRIA DA NAÇÃO PORTUGUESA
CONCURSO DA RTP 1

UM SONHO!? UM PESADELO!?
UM DELIRIO FEBRIL!? Salazar!?
NÃO! NÃO! Não pode ser… Isso é incrível!!! Mas, infelizmente, é verdade!...
A figura sinistra, empedernida e criminosa de Salazar aparece nas primeiras dez personalidades mais importantes de toda História da nação portuguesa!
Eleitos pelos portugueses no concurso levado a efeito pela RTP 1, que não julgo credível, porque, se o fosse, no meu entender, seria um autentico descalabro para os portugueses sérios e amantes da liberdade e, ainda, para o futuro de Portugal!
Como foi votado o ditador? Pela repetição dos votos dos eleitores saudosistas? Por jogadas obscuras que só interessam a um grupo restrito de oportunistas que ainda pensam em recuperar interesses irremediavelmente perdidos?!
Ou será a falta de memória e discernimento de um Povo que nada aprendeu e deseja voltar a mergulhar no grave obscurantismo, que nos iria levar, de novo, à tirania e conduzir a grande maioria dos portugueses à miséria e ao sofrimento!?
Reconheço que, desde o desaparecimento desse ditador, já nasceu e cresceu muita gente que não deve estar, devidamente, informada e esclarecida sobre a péssima governação de Salazar que, apenas, desejava uma moeda forte só para os bolsos dos seus acólitos, enquanto o resto da população vivia na mais dolorosa miséria!
É precisamente para esses jovens e adolescentes e, ainda, para os que têm a memória curta, que eu me predispus a escrever os episódios das minhas vivências verídicas e sem argumentação em contrário, porque eu próprio as vivi.
Assim, vou procurar, dentro das minhas modestas possibilidades porque não sou “letrado”… informar e esclarecer, sobre tudo, esses grupos etários para que, eles próprios, tirem as suas elações…
Esta descrição baseia-se numa análise fria e séria do que foi o governo de Salazar e das consequências daí resultantes!...
Confesso, até, que me dei ao trabalho de ler a biografia do ditador e não contesto que se tratava de uma pessoa honesta e de sentido na parte económica, cuja a acção foi, apenas, útil ao país enquanto ministro das finanças.
Como primeiro-ministro foi uma figura retrógrada, de estagnação, sem acompanhar a evolução da Europa, exercendo a sua actividade na protecção dos corruptos de exacerbadas ambições de fortuna, em detrimento do resto da população que vivia abaixo do nível de pobreza!
No governo de Salazar só os funcionários públicos tinham o privilégio do direito à reforma e ao abono de família e alguma protecção da Segurança Social, em caso de doença, enquanto o resto da população passava uma vida de dificuldades a rondar a miséria, cuja “reforma”, na invalidez e no fim da vida era um saco às costas e um cajado e, com grandes dificuldades, calcorrear os povoados pedindo uma esmola que, normalmente, não ia além de um “tostão” e, não raras vezes, lhes eram acirrados os cães para lhes negar o mísero “testanino”!
Salazar não permitiu o desenvolvimento industrial nem sectorial nem a eficiência dos Serviços. Para uma pequena industria, levava anos a conseguir-se o alvará, quando não lhes era, simplesmente, negado! Só os grandes grupos económicos e os seus seguidores tinham direito a tudo!
Quanto aos episódios das minhas vivências, começo por uma ocorrência, passada nos anos quarenta, no lugar do Terreiro da freguesia da Faia, sendo protagonistas meu pai, Bernardo de Magalhães e João Pucarinha, caseiro rendeiro na quinta do Souto da referida freguesia. Eram homens da mesma geração e já se conheciam desde crianças.
João Pucarinha, emocionado pelo desespero e chorando copiosamente, dizia: - “Bernardo, não sei o que fazer à minha vida! Não colhi dez rasas de milho e tenho de pagar quatro carros e meio (o que equivalia a cento e oitenta rasas) ao patrão e não me perdoam uma rasa! Só tenho vontade de me matar…” etc. Tratava-se de um ano muito seco e não havia água para regar o milho. Este episódio marcou-me para o resto da minha vida!
Nesse tempo, o caseiro rendeiro tinha uma vida de semi-escravo e, não raros anos, era obrigado a vender o pouco vinho que lhe tocava na divisão e quase tudo que possuía para pagar as “medidas” ao patrão; limitando-se a beber água-pé… que era uma pouca de água de lavar o bagaço das uvas!...
Nos anos em que as colheitas eram mais reduzidas, estes explorados tinham como recurso de sobrevivência, apenas uma tigela de sopa de couves, por vezes sem azeite, (a que chamavam caldo) por não terem recursos para mais nada!
Trabalhavam de noite e dia para poderem sobreviver. Viviam quase sempre em casa de terra batida, sem sanitários, sem luz, sem água e sem as mínimas condições de habitabilidade!...
Não usufruíam, praticamente, nada e até o gado que utilizavam para cultivar a terra, lhes era facultado a “ganho” por terceiros que também os exploravam sem quaisquer escrúpulos! “ganho” significava que as mais valias dos animais eram divididas entre o explorador e o explorado que, não raras vezes, os explorados ficavam, apenas, com um terço dos lucros.
Durante o governo de Salazar, salvo as excepções dos seus seguidores, não era permitido aos portugueses sair de Portugal sem uma carta de chamada que lhes garantisse emprego no estrangeiro ou nas colónias portuguesas de África. Eu próprio pretendi emigrar para Lourenço Marques – Moçambique e não consegui! Durante o Inverno, como os dias eram pequenos, não havia um dia para ganhar!
Salazar utilizava a PIDE e a Guarda-fiscal para vigiar as fronteiras e a costa marítima para que nem só um português saísse do território. Aquele que o tentasse fazer era preso e julgado nos tribunais sujeitando-se a graves penas de prisão! Salazar e os seus seguidores não queriam que os portugueses saíssem para o estrangeiro para que os exploradores e capitalistas, quando precisassem de dois ou três trabalhadores, pudessem escolher entre quinze ou vinte que, por vezes, se juntavam em determinado sitio, previamente convencionado, ficando os restantes, desesperados a digerir a fome e a miséria em que viviam. Eu próprio assisti a episódios desta natureza, na aldeia de Safara, Concelho de Moura.
Pelos anos sessenta, a França e a Alemanha começaram a admitir imigrantes estrangeiros para restaurar as destruições provocadas pela II grande guerra mundial. Os portugueses, ao saberem dessa possibilidade, logo pensaram emigrar para ganhar o pão de cada dia mas as dificuldades de partir eram enormes!... Não sabiam a língua nem conheciam itinerários e a perseguição da PIDE e da Guarda-fiscal sobre todos os que pretendiam sair de Portugal, impedia-os de se decidir por essa aventura! Foi, então, que surgiram outros grupos de exploradores “os engajadores-passadores” que, mediante pagamento das quantias combinadas, tomavam o compromisso de os fazer chegar aos países de acolhimento.
Depois de pagas as respectivas importâncias, lá seguiam através da Espanha, quase sempre a “salto” para não serem presos pela Guarda-Civil (que os entregava à PIDE se os apanhasse)! Mas estas caminhadas eram muito difíceis, sobre tudo, para os primeiros emigrantes.
Faziam grandes trajectos a pé, por vales e serras e tinham de atravessar os rios sobre pontes improvisadas e frágeis, por eles próprios construídas e, não raras vezes, ocorriam acidentes, alguns deles fatais! Outros eram transportados deitados em camiões de carga com dois andares de cabras e ovelhas por cima, para não serem vistos e presos!... Escusado será dizer que as cabras e as ovelhas largavam sobre eles as fezes e as urinas!
Estas tristes ocorrências foram por mim presenciadas na fronteira no concelho de Vinhais com a Espanha, quando lá prestava serviço na Guarda-fiscal.
Se alguns tinham o azar de serem presos, eram entregues à PIDE e, então outros dramas se passavam com os infelizes… que não tinham cometido qualquer crime para além de querer trabalhar e ganhar o sustento para os seus familiares!
Os elementos da PIDE, pessoas sinistras e frias torturavam os desgraçados para descobrirem quem eram os “passadores” afim de lhes extorquir todo o dinheiro que pudessem, para não os entregar no tribunal afim de serem julgados e mandados para a cadeia!
Eram situações chocantes demasiado intragáveis para os meus princípios e, conhecedor destas ocorrências, nunca tive coragem de entregar os detidos à PIDE.
Podia descrever muitos mais episódios desta e doutra natureza, mas estou convicto que já chega para caracterizar a sinistra figura de Salazar.
O desaparecimento de vários operários da fabrica do ferro em Fafe, que nunca mais apareceram, o assassínio a frio de Catarina Eufémia e ainda o monstruoso crime do assassínio do general Humberto Delgado e da sua companheira, próximo de Badajoz, para além de muitos outros é o espelho da vida de um ditador salpicado de sangue e violência que, como outros iguais, não tem o direito de viver entre os humanos e, tanto menos, de aparecer agora entre as dez mais importantes personalidades de toda a História da Nação Portuguesa, ficando de fora outros que lhes devemos imenso pelo que fizeram por Portugal e pelo seu Povo!... podia citar alguns nomes mas abstenho-me de o fazer.
A descrição que antecede não é um episódio de ficção para reproduzir um filme!
Trata-se de tristes ocorrências que os portugueses viveram e sofreram e foram por mim presenciadas e, portanto, imunes a qualquer contestação ou desmentido!
Pessoalmente julgo e aqui julgo…que as dificuldades financeiras e o atraso em que o pais se encontra se devem ao mau governo de Salazar que manteve Portugal no obscurantismo e na ignorância e sem formação especializada para nos desenvolvermos.
O obscurantismo e a ignorância convinha aos seguidores de Salazar para melhor poderem explorar o povo. Muita gente se lembra da frase infeliz do Cardeal Cerejeira ao dizer: “que os portugueses para serem humildes tinham de passar fome”!...
Se Portugal tivesse outro Marquez do Pombal durante o tempo que Salazar governou, estou convicto que viveríamos num dos países mais avançados da Europa.
J.M

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