Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-05-2007

SECÇÃO: Recordar é viver

O REGRESSO AO BAÚ DAS RECORDAÇÕES

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Mulheres não entram! Ficam em casa…

Queridos amigos cá estou de novo às voltas com recordações do passado. Há dias ao dar uma arrumadela às gavetas para lhes dar um pouco de ordem, reparei que elas não fechavam entupidas por tantas fotografias. E, apesar de já as ter revistado milhentas vezes dei por mim outra vez a passá-las uma a uma a “pente fino”. Como sempre acontece quando mexo nelas há sempre algo que me escapou na vistoria das outras vezes. Sem dúvida alguma estas imagens que vos vou mostrar neste quinzenário têm muitos anos, vós mesmo o ireis verificar! São fotos de rapazes em que a maioria andavam na casa dos vinte anos, tal como eu. Embora um ou outro fosse mais velho como o meu cunhado Custódio Pinto, o Manuel Carneiro, meu marido, o senhor Vilela, mais conhecido por Vilela da “farmácia” e parece-me também o marido da “Lula do Geba”.
Os mais novos são os gémeos Narciso e o Francisco, filhos do António Revolta e Miquinhas, o Zé Candinha, o Fernando Carvalho “Correeiro” da Ponte de Pé, o Tónio “Ourives”, o Manuel Moura, o Alfredo Mendes de Riotrutas, que foi durante muitos anos electricista da Câmara. Um ou outro que está nas fotos não me recorda do nome deles. Penso que os filhos mais velhos da senhora Filomena das Pereiras, o António, o Quim e o Fernando Rebelo faziam também parte destas brincadeiras inofensivas.
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E agora vocês estarão intrigados a perguntar aonde eu quero chegar com estas fotos e estas personagens. Vou tentar explicar da melhor maneira a origem delas.
Seguramente estas fotos têm mais de trinta anos!
Todos os anos a “malta da Raposeira” e doutros lugares, entenda-se - os rapazes - resolviam por altura das lagaradas, cozer grelos com batatas e bacalhau, regadinhos com azeite colhido directamente dos lagares, se não me engano penso que era ali para os lados de Outeiro. Era um pretexto para se juntarem sempre para as “borgas”, inocentes, claro! …diziam eles! Com certeza que a despesa devia ser dividida entre todos. Arranjavam um local onde pudessem acender a fogueira para cozinhar a comida nos potes, como se pode verificar pela fotografia. Claro que estes petiscos eram sempre bem temperados com o “tintol”, talvez um verdinho tinto “carrascão” ou um “americano” que no meu entender escorrega melhor e ajuda a “deslaçar” melhor o bacalhau…
Uma coisa vos posso garantir! Mulher não entrava, pelo menos as casadas! Nas fotos, realmente não aparecem raparigas.
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Ao olhar para todas estas fotografias, deu-me vontade de rir ao lembrar-me como ficava cheia de raiva quando o meu marido dizia que iam para as lagaradas. Ficava danada porque dizia que as “tainadas” eram só para homens! De maneira que nunca, que eu saiba, as mulheres tiveram acesso ao banquete “lagareiro”
Era tão novinha nessa altura, teria pouco mais de vinte anos!
Que machistas eram os rapazes daquele tempo! Quando jogasse o Atlético ou houvesse uma “borguita” as mulheres casadas e as solteiras não lhe punham a vista em cima.
No fundo eram tudo bons rapazes! Hoje estamos todos mais velhos, uns mais do que outros, claro! Pena é que este grupo de pessoas não conviva muito. A meu ver, por altura do 25 de Abril com o aparecimento de vários partidos também se deu uma separação gradual. Cada pessoa foi-se identificando com um partido e partir daí foram olhando um pouco de lado uns para os outros. Foi pena!
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Agora as pessoas estão mais maduras, já encaram as coisas de outro modo, as mulheres combatem lado a lado com os homens nos mesmos ideais, etc! Pudera! Passaram trinta e tal anos!
É bom recordar mesmo que estas fotos me tragam algumas lembranças menos felizes!
Espero que os que faziam parte destas festarolas não tomem a mal por estas minhas lembranças e destes meus comentários. Posso dizer que foi com bastante saudade e, porque não dizê-lo, com uma lágrima no olho que olhei para estas fotografias e verifiquei a diferença do ontem e de hoje.
É pena que um deles já não faça parte desse grupo. Já não “mora” cá! Está num lugar em que nós nos encontraremos um dia! Que o Toninho Carneiro esteja em bom lugar e que nos recomende a nós e aos seus filhos ao Todo Poderoso que está no Céu!


Por: Fernanda Carneiro

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