Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-04-2007

SECÇÃO: Opinião

Notícias de Moçambique

Só hoje senti
Que o rumo a seguir levava p’ra longe
Senti que este chão já não tinha espaço p’ra tudo o que foge
Não sei o motivo p’ra ir

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Só sei que não posso ficar
Não sei o que vem a seguir
Mas quero procurar
E hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre
Aqueles que são para outro amanhã
Quero ser diferente
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu
Um pouco de céu

Só hoje esperei
Já sem desespero que a noite caísse
Nenhuma palavra foi hoje diferente do que já se disse
E há qualquer coisa a nascer
Bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer qualquer outro fim
Não quero levar o que dei
Talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu
Um pouco de céu…

Mafalda Veiga


“Onde Houver o Bem a Fazer que se Faça!”


…A janela do avião deixava antever um pouco da nova paisagem – tudo plano com extensas áreas de coqueiros e ao fundo o Índico…
À saída o choque para quem vem do Inverno Europeu (a 14 de Fevereiro) e entra numa sauna com cerca de 34 ºC que já se faziam sentir em Maputo apesar de serem apenas 11 h da manhã. Passados alguns segundos, necessários para me restabelecer, uma enorme vontade de rir ao reparar que o principal aeroporto deste país era constituído apenas por dois ou três edifícios com dois ou três andares e com aspecto degradado. Aviões não existem, apenas duas avionetas em toda a extensão da pista e um pequeno tractor, sim um tractor, que com um atrelado fazia o transporte da bagagem! Estava de facto a entrar numa nova realidade…
Após uma recepção calorosa das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (como sempre!), fizemos uma pequena viagem pela outrora colonial Lourenço Marques e agora Maputo. Confesso que imaginava uma cidade mais pequena e menos desenvolvida.
Ao afastarmo-nos do centro da cidade, uma pequena percepção da realidade. Como aqui tudo é plano, é fácil a este tipo de cidades crescer para a periferia com infinitos bairros de lata de centenas de milhares de pessoas amontoadas de uma forma desorganizada atraídas pelo sonho de uma vida melhor na cidade. As ruas secundárias encontram-se todas esburacadas, e os passeios não em melhor estado. De repente a sensação de entrar numa lixeira gigantesca! Ao longo das ruas, toneladas de lixo encontram-se espalhadas e amontoadas um pouco por todo o lado, nos passeios, junto às casas, às escolas… Como se não bastasse frequentemente charcos de esgotos arrebentados fazem-se correr pelas ruas misturando-se com todo este lixo existente. Com o calor que se faz sentir pode-se imaginar o odor que se sente e que se nos entranha da roupa até à alma… Agora é só imaginar um trânsito caótico e milhares de pessoas em cima de todo este cenário a circularem freneticamente de um lado para o outro e a venderem de tudo o que se possa imaginar, ali mesmo em cima do lixo, dos esgotos. Juntam uns montinhos de pedras que retiram do entulho que também se amontoa pelas ruas e sobre um pano vendem ainda todo o tipo de comida, feita sabe-se lá em que condições, e sem estar protegida, sujeita ao pó, ao lixo, aos esgotos. Apenas um convite às muitas doenças que espreitam por aqui…
Devido a alguns imprevistos na obtenção dos papéis de residente, a minha estadia nos arredores de Maputo prolongou-se por mais de um mês. Esta estadia permitiu adaptar-me aos poucos a esta realidade - ao calor, à comida, aos cheiros, às cores e claro à rede mosquiteira que ao inicio estava a ser complicado. Mas acima de tudo permitiu também ter ainda uma maior percepção da verdadeira realidade, a realidade que nos toca, a realidade de um sem número de crianças que deambulam pelas ruas, sem destino, vítimas de uma SIDA que lhes dizimou os pais, ou simplesmente foram abandonadas por eles à sorte da vida…
No bairro onde vivi também existem crianças de ninguém, como lhes chamo, mas pelo menos têm o amparo das Irmãs e de algumas ONG’s que trabalham incansavelmente no local. Bairro este construído de raiz por iniciativa das Irmãs aquando das cheias de 2000 e desde logo mais organizado.
Cedo me descobriram, também era fácil, um novo branco (visto só existir um, que é um voluntário espanhol). Chegam desconfiados e aos poucos se aproximam, trazem no olhar uma infância marcada pela doença e pela fome, pela falta de afecto. Rapidamente grudam em nós, apenas porque lhes demos alguma atenção, a simples atenção de lhes passar a mão pela cabeça e lhes perguntar o nome…
Mas não era para aqui que estava destinada a minha Missão e ao fim de um mês e uma semana finalmente a viagem estava marcada para o local de destino, também tive que ir de avião, pois as distâncias aqui são muito grandes, de carro demoraria cerca de 2 dias. De Maputo para Quelimane (capital da província da Zambézia) demorou quase 2 horas de avião, e no mesmo dia fiz a viagem de carro para o Gurué (Interior-Norte da Alta Zambézia) que demorou cerca de 5 horas! Por estradas boas, esburacadas, em terra batida, enfim, um verdadeiro safari para aqui chegar…
Ao passar em Quelimane ainda alguns vestígios das cheias deste ano, alguns charcos, muita lama e muitas barracas alagadas. Aos poucos, as extensas áreas de coqueiros começam a desaparecer, a terra, que até então era praticamente só areia, começa a ficar com uma tonalidade avermelhada e o verde começa a intensificar-se. Ao fundo as primeiras montanhas, uma paisagem típica de floresta tropical húmida. O Gurué é das zonas de Moçambique onde mais chove e é das terras mais férteis e produtivas.
À medida que nos aproximávamos do local de destino, as suaves ondulações do terreno começaram a cobrir-se de extensas áreas de plantações de chá, pelo meio algumas árvores que se erguem, aqui e ali, com aquele aspecto típico aqui de África. Logo ao fundo, contrastando com as suaves ondulações do terreno, de repente erguem-se as abruptas e imponentes encostas do monte Namuli (com mais de 2500m), verdes até ao topo e lá no cimo uma pequena cascata que espreita entre dois cumes. Um por do sol que faz passar os seus raios amarelecidos por todo este cenário, uma pequena brisa e um silêncio arrepiante que nos emociona! A melhor saudação de boas vindas, um verdadeiro quadro emoldurado…
Ao chegar e ao sair do carro largas dezenas de pessoas nos rodeiam a cantar cânticos de boas vindas com aquela sonoridade típica que pede o acompanhamento das ritmadas batucadas…
Aqui acolhem bem todas as pessoas, mas os Voluntários de uma forma muito especial.
Aqui, sente-se aquele silêncio, não só exterior mas também interior, interrompido apenas pelas sonoridades que ecoam daqui e dali, vindas algures da montanha de uma qualquer celebração dos vários clãs espalhados por este território sem fim…
A imagem de todo aquele lixo e confusão foi ficando para trás com o percorrer dos quilómetros… As pessoas aqui fazem pouco lixo sintético, vivem praticamente do que vão “tirando” da Natureza e pouco mais.
O dia abre pelas 5:30 – 6:00 da manhã com a vagarosidade de um sol que se arrasta ensonado pelos céus, deixando na passagem pinceladas de rosas e laranjas que se vão misturando aos poucos. Pelas ruas os sons dos primeiros movimentos, dos galos a cantar desenfreados anunciando um novo dia, das primeiras pessoas a movimentarem-se enroladas em panos à procura da água que escasseia ou envolvidas nos primeiros trabalhos da machamba (que significa trabalhos do campo).
Ao chegar à escola, mais uma surpresa, a directora, que também é Irmã disse-me que ia dar Matemática! Logo eu! Mas depois de negociarmos lá fiquei com a Química! Temos que vir preparados para tudo para terrenos de Missão, tendo mesmo que refazer os planos iniciais! Tenho 9 turmas da 8ª Classe, cada turma com cerca de 40 alunos, uma média de 360 alunos. Um luxo, dizem as pessoas que passam, porque a maioria das escolas possui turmas com cerca de 80, 90 ou mais alunos! Mas algo impensável para uma normal sociedade. As aulas começam às 7:00 e a maioria dos professores vêm ou a pé, ou de bicicleta da cidade que fica a cerca de 15 Km! Chegam a transpirar e algumas vezes atrasados pelo imprevisto de um pneu furado. Uma realidade inimaginável! Aqui os professores são paupérrimos! Os que dão aulas pela primeira vez só recebem o ordenado ao fim de meio ano!
As crianças são de facto uma força da Natureza! Imaginem-nas pequeninas, muito sujas e despenteadas, de narizes ranhosos e roupas geralmente rasgadas, e iluminando o seu rosto, um sorriso enorme que nos dá esperança e que nos faz acreditar na construção de um futuro melhor…
Surpreendo-me pela vontade de aprender e de crescer que alguns destes jovens têm. Mesmo sem qualquer estimulo, mesmo sem televisão nem Internet, nem tão pouco uma boa biblioteca ou bons livros para estudar, mesmo sem jornais ou revistas para irem sabendo o que se passa no mundo, mesmo sem locais de convívio ou cafés ou jardins, mesmo sem luz ou água canalizada, mesmo alguns deles ainda marcados pela guerra… mesmo assim, ou talvez por isso, há quem me diga que quer estudar para tornar o mundo melhor!
Aqui aprende-se sobretudo a viver o tempo e não a viver no tempo; a estar com as pessoas e não a estar simplesmente entre pessoas; a sonhar entre o terreno tão pouco fértil das possibilidades e não a encontrar impossibilidades nos sonhos…
Teria muito mais para contar, como devem imaginar, aqui todos os dias se tem uma nova vivência, uma nova experiência. Pequenos momentos, pequenas coisas que nos vão ficando na memória, e acima de tudo, no coração…
Ao terminar gostaria apenas de agradecer a todas as pessoas que me apoiaram das mais variadas formas e me deram força para estar aqui. Cumprimentos aos familiares e amigos, e de uma forma especial a todos os membros da FASFHIC, unidos que estamos certamente pela força da oração. Ainda à direcção e redacção do Ecos de Basto e de um modo geral a todos os leitores.
Despeço-me apenas com o lema da Congregação das Irmãs Franciscanas: “Onde Houver o Bem a Fazer que se Faça!”.
Até breve…

Pedro Almeida
Lar Internato Madre Maria Clara
Invinha, Gurué – Zambézia
Moçambique



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