Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-04-2007

SECÇÃO: A nossa gente

Engº Dinis Manuel Teixeira Pereira

Um investigador cabeceirense em terras açoreanas
Dinis Pereira é um jovem investigador cabeceirense radicado nos Açores onde integra um grupo que se dedica a estudos sobre ecologia vegetal e aplicada, na Universidade desta Região Autónoma.
Nascido em Refojos de Basto há trinta e um anos, no seio de família modesta, com mais quatro irmãos por companhia, este investigador começou os seus estudos em Cabeceiras de Basto, tendo transitado, mais tarde, para a Escola Técnica de Fermil de Basto.

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Dando asas à sua paixão pelas coisas da Natureza e, principalmente, pelas plantas, escolheu a Universidade dos Açores na qual concluiu a licenciatura em Engenharia do Ambiente dedicando-se ao desenvolvimento de um modelo em sistemas de Informação Geográfica dirigido à distribuição potencial das florestas naturais do arquipélago.
O cientista, nosso conterrâneo, esteve, recentemente, entre nós para visitar os familiares, servindo o ensejo para que Ecos de Basto pudesse registar a entrevista que se segue:

Apaixonado pela Natureza

Ecos de Basto – Como nasceu em si o gosto pela natureza e, particularmente, pelas plantas?

Dinis Manuel Pereira – Por razões de empatia, apaixonei-me, desde pequeno, pela natureza. Muitas vezes, saía sozinho de casa e percorria itinerários florestais do nosso concelho para admirar as árvores e saborear a beleza das paisagens. Interrogava-me então como seria a vida daquela imensa vegetação, quais os segredos do seu crescimento, da variedade das espécies, da utilidade para o meio e da importância ecológica. Estava, na ocasião, no 11º ano no Colégio de S. Miguel de Refojos quando soube que na Escola de Fermil ia avançar um curso técnico agro-florestal. Inscrevi-me naquela escola e ali fiz o curso, findo o que me candidatei à Universidade do Açores.

E.B. – Porque optou pela Universidade dos Açores?

D.P. – Naquela altura criei a ideia de que os Açores eram o melhor local para o estudo das plantas, por causa da sua riqueza florestal e da grande variedade e especificidade das espécies que ali proliferam. Entrei no curso de Engenharia do Ambiente e logo que o conclui comecei a trabalhar na investigação graças a alguns professores que descobriram na minha pessoa algumas qualidades científicas e um interesse enorme em estudar a flora daquelas ilhas do Atlântico. É claro que tudo isto foi feito com um grande esforço dos meus pais, embora, mais tarde tivesse a ajuda da própria Universidade.

Presente no Plano da Rede Natura 2000

E.B. – O que faz um investigador de ecologia vegetal?

D.P. – A minha missão é, essencialmente, a de trabalho no campo, ou seja, no meio da floresta, fazendo recolha, análise minuciosa e estudo da evolução e alteração de uma série de plantas. Integro o GEVA, que significa o Gabinete de Ecologia Vegetal e Aplicada, coordenado pelo Professor Eduardo Dias da Universidade dos Açores. Existente há vários anos este gabinete científico participou, entre outros, no Plano de Monitorização Ecológica do Projecto Geotérmico da Ilha Terceira e no Plano Global de Gestão da Rede Natura 2000. Enquanto estou no trabalho de campo, quase sempre de galochas e com roupas operárias, a tarefa torna-se, por vezes, isolada e fria, mas, ao mesmo tempo, aliciante e motivadora.

E.B. – Em que medida as novas tecnologias informáticas contribuem para o seu trabalho de investigador?

Flores dos Açores
Flores dos Açores
D.P. – Actualmente as novas tecnologias computacionais são um meio auxiliar extraordinário e imprescindível. Usamos tecnologias de ponta com programas informáticos dos mais sofisticados do mundo. Temos ainda laboratórios magníficos onde produzimos, sobretudo, cartografia das espécies raras dos Açores. O gabinete a que eu pertenço desenvolve presentemente o projecto designado por Atlântida, destinado a organizar uma base de dados geográfica e alfanumérica da História Natural dos Açores, pertencendo-me a responsabilidade do reconhecimento do referido gabinete como Intergraph Registered Research Laboratory.

Centenas de trabalhos publicados

E.B. – Sabemos que os seus trabalhos de investigação têm sido publicados em livros da especialidade. Há algum que se tenha destacado mais?

D.P. – De facto, tenho imensos trabalhos elaborados no âmbito da investigação que faço. São cerca de 2000 as cartas relativas ao Plano Global da Rede Natura em que participei. Tenho ainda inúmeros artigos e outros escritos publicados em livros em que sou coautor com outros colegas. Dedico, neste momento, algum tempo a um trabalho de tese para um mestrado que estou a fazer na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real.
Pastagens dos Açores
Pastagens dos Açores

E.B. – O que pensa da velha e sempre actual dicotomia, protecção da natureza versus desenvolvimento?

D.P. – Trata-se, efectivamente, de uma questão polémica que alimenta muitas discussões e que está na ordem do dia. Acho, porém, que é possível compatibilizar as duas realidades de uma forma inteligente e sem radicalizações. Sou, por exemplo, contra aos fundamentalistas que querem proteger tudo. É o passarinho, a borboleta, a plantinha e mais não sei quê que corre perigo, sem se darem conta que todos nós temos que viver. O que faz falta é encontrar as soluções mais correctas para se compatibilizar a vida e o desenvolvimento com a protecção da natureza.
Porto de Pesca
Porto de Pesca

Imensa riqueza florestal em Basto

E.B. – Como vê os recursos florestais destas terras de Basto?

D.P. – Cabeceiras de Basto e toda a região que a circunda tem magníficas potencialidades naturais, tem espécies arbóreas valiosas, aliás, com grandes semelhanças com certas áreas do Açores. Só é pena que muita dessa riqueza tenha vindo a ser delapidada nos últimos anos por motivo dos fogos florestais. Mesmo assim, e desconhecendo os eventuais projectos de protecção, reflorestação e modernização para esta zona, considero que existem as melhores condições para que a nossa floresta represente, económica e ecologicamente, uma mais valia para Basto.
Praia dos Açores
Praia dos Açores

E.B. – Quais são os seus projectos de vida para o futuro?

D.P. – Bem! Para já o meu desejo é manter-me na Universidade e fazer aquilo que mais gosto. Prosseguirei com o mestrado para depois fazer o doutoramento, objectivo académico que quero concretizar nos próximos anos. Profissionalmente e quando terminar a bolsa de investigação, talvez crie o meu próprio gabinete de investigação. Estou a pensar em criar esse gabinete com uma abrangência global recorrendo às tecnologias de comunicação. Poderei então fazer trabalhos de investigação e estudos para qualquer cliente ou instituição do mundo, mas sem sair dos Açores onde me sinto muito bem e sou bem tratado.
Vulcão do Pico
Vulcão do Pico


Evolução de Cabeceiras impressiona

E.B. – Não sente saudades da terra natal, de Cabeceiras de Basto?

D.P. – Claro que sinto saudades da minha terra, das suas coisas e também da família e dos amigos. Felizmente que, sensivelmente, de dois em dois meses, meto-me no avião e venho a Cabeceiras de Basto. Nunca deixei de estar ligado a este belo rincão nem nunca esqueci ou esquecerei as minhas origens. Cabeceiras é uma terra linda e que cada vez mais dá gosto visitar.

E.B. – Ausente há alguns anos, como vê a evolução e o progresso que se tem registado?

D.P. – A evolução e o desenvolvimento que Cabeceiras tem registado é algo de impressionante que me apraz reconhecer. Até na maneira de pensar eu noto que as pessoas têm evoluído muito. Lembro que há dez anos eu para arranjar um livro para ler via-me e desejava-me. Não havia Biblioteca, nem Casa da Cultura. Agora as coisas estão muito diferentes. No plano da infraestruturas, dos serviços, dos equipamentos, da urbanização, do comércio, da limpeza, etc, etc, Cabeceiras de Basto está um mimo.

Jovens cabeceirenses podem ter futuro de sucesso

E.B. – Sendo um cabeceirense com reconhecidos méritos científicos que conselho daria aos jovens para que outros conquistem as vias do sucesso?

D.P. – Olhe! No meu tempo de jovem estudante eu e muitos outros colegas passamos inúmeras dificuldades, mas fizemos o esforço necessário para chegarmos a algum sítio, ao objectivo que queríamos. O isolamento de Cabeceiras de Basto acabou, não só porque tem boas estradas e até já tem autoestrada. Mas actualmente há também as outras vias rápidas da Internet que nos colocam no centro do mundo e nos dão acesso ao conhecimento. Por isso, aconselho os mais jovens a trabalharem com empenho, a serem empreendedores, a serem ambiciosos e exigentes nos objectivos a que se propõem. Com esforço, humildade e querer tudo se consegue. Tenho para mim que os jovens cabeceirenses são bem dotados e têm capacidade para terem um futuro com sucesso.






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