Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-04-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (75)

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O HOSPITAL PROFESSOR JÚLIO HENRIQUES

Penso comungar do sentimento de algumas centenas, ou até mesmo milhares, de cabeceirenses que, desconhecendo em absoluto tudo o que está por detrás da situação criada, não tendo qualquer paixão, nem qualquer opinião, nem mesmo qualquer filiação de natureza política ou partidária, se interrogam sobre o que poderá estar a passar-se relativamente aquele espaço, onde outrora existia um belo quintal, com duas frondosas macieiras, carregadas de frutos rosados, sempre que chegava o mês de Setembro.
Na década de cinquenta do século passado, ocupando aquele quintal, que pertencia ao Senhor Abílio Pereira Gomes, e parte dos campos da quinta da Boavista, onde granjeava o Senhor Júlio, foi construído o hospital novo, que viria a substituir o outro velhinho, então existente no alto das Acácias. Foi a primeira obra do género, edificada em Cabeceiras de Basto, com recurso a novos materiais de construção, como sejam, entre outros, a argamassa de cimento, brita e areia, reforçados com ferro.
Foi inaugurado em 16 de Junho de 1959, com grande pompa e circunstância, pelo então recentemente eleito Presidente da República, Américo de Deus Rodrigues Tomaz. Teve um longo período de glória. Foram mais de quatro décadas. Inicialmente, e por uma larga parte de toda a sua existência, apenas funcionou em dois pisos. O terceiro piso manteve-se por acabar durante muito tempo.
Não obstante a sua pequena dimensão, e o carácter concelhio da estrutura, realizava-se aqui quase todo o tipo de cirurgias, grandes e pequenas. Era às segundas-feiras, da parte de tarde, que o cirurgião Dr. Avelino Pulido, natural da Gandarela, mas a trabalhar no Hospital de Santo António no Porto, se deslocava ao nosso hospital, ao hospital de Cabeceiras, para operar. O Dr. Pulido era assistido pelo anestesista Dr. Mota Prego, que vinha de Guimarães, e pelo sempre querido dos cabeceirenses, e clínico residente, o Dr. Francisco de Sales Leite de Castro e Meireles.
No período inicial do seu funcionamento, primeira metade da década de sessenta, do século passado, o pessoal interno, aquele que estava mais em contacto com os doentes, eram quatro Irmãs da Ordem das Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas: a Madre Superiora, a Irmã Augusta, a Irmã Amélia e uma quarta que não me lembra do nome; as empregadas eram: a Rosa e a Conceição França, a Lúcia e uma quarta que também não me lembra o seu nome, sei apenas que era de Eiró, da freguesia de Riodouro.
No que respeita a pessoal masculino, era o Senhor António Enfermeiro. Este fazia todo o trabalho de enfermagem para homens, como curativos, aplicação de injecções, lavá-los e prepará-los para a sala de operações. Também despachava este ou aquele para a morgue do hospital, sempre que isso fosse necessário. Tratava ainda dos relvados e dos jardins envolventes ao edifício, que mantinha um primor. Nas horas vagas ia para a enfermaria oito, que tinha o número oito, na sua ordem numérica, e tinha também oito camas, ao invés de todas as outras, que apenas tinham quatro camas cada uma. Esta enfermaria, a oito, ficava na extremidade norte nascente, onde estavam aqueles doentes de permanência mais prolongada. O Senhor António Enfermeiro dedicava-se a contar-lhes histórias. Era um excelente contador de histórias, o Senhor António Enfermeiro.
Conheci um jovem rapaz, de aspecto muito franzino, devido à doença que lhe atacava o estômago, que foi operado, com assinalável êxito, pela equipa médica acima referida, no dia dois de Maio de 1964. A operação demorou três horas e meia, foi-lhe retirado dois terços do estômago, padecia de uma “estenose pilórica”. Ao fim de oito dias foi para casa, ao fim de um ano foi à inspecção militar, ao fim de dois anos foi para a tropa, assentou praça no Regimento de Infantaria 13, em Vila Real, a dois de Maio de 1966. Aguentou quatro anos de serviço militar obrigatório, na Metrópole e no Ultramar, e consta que ainda é vivo. Parabéns aos Drs. Avelino Pulido, Mota Prego e Francisco Meireles.
Sobre a personalidade que deu o nome ao novo hospital, o Professor Júlio Augusto Henriques, trata-se de uma das mais ilustres figuras nascidas no nosso concelho. Não encontrei elemento escrito que atestasse a freguesia da sua naturalidade, contudo, obtive informação verbal de que é natural da freguesia do Arco de Baúlhe. Dos registos das enciclopédias consta que nasceu em Cabeceiras de Basto a quinze de Janeiro de 1838, e morreu em Coimbra a sete de Maio de 1928. Morreu, portanto, com noventa anos de idade. Do seu curriculum consta que se formou em Direito em 1860, e se doutorou em Filosofia em 1865. Entre muitas outras actividades, foi encarregado da regência da cadeira de Botânica e Director do Jardim Botânico de Coimbra. Em vinte e nove de Maio de 1918, a Universidade de Coimbra prestou-lhe pública homenagem, tendo sido então resolvido dar o seu nome ao Jardim Botânico, ao Museu e ao Laboratório. Uma estátua, perpetuando a sua memória, foi erigida na alameda do Jardim Botânico, em Coimbra.

Por: José Costa Oliveira

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