Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-04-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA (8) (Cont.)

Não obstante o facto de a Eirinha correr o risco de ficar sem caseiro, e de o Senhor Malvino dar a sua garantia pessoal de que o Manuel Carlos, era pessoa da sua mais perfeita confiança, quer em termos de honestidade, quer em termos de capacidade de trabalho, o patrão não abdicou da sua assinatura como fiador do caseiro a quem iria dar as terras de arrendamento. Não fosse, em sua opinião, o malandro escapulir-se, no fim de um qualquer ano, com todo o vinho e todo o milho e todos os outros cereais acabados de colher, e ainda com as vacas e, quem sabe, com as crias das vacas. Perante este quadro, e para evitar delongas de maior, o Senhor Malvino acabou por ficar de fiador do jovem caseiro da lavoura da Eirinha. E foi assim que, num dos primeiros dias do mês de Novembro de 1948, chegou à Eirinha o jovem casal, ele agora com vinte e sete anos, ela com vinte e seis, e três crianças, o mais velho, o Zé, com três anos e os dois gémeos com um ano apenas. Os haveres foram transportados em dois carros de bois. Um dos carros levava a mobília mais fina, uma caixa com capacidade para cerca de vinte rasas, com algum do milho colhido nas leiras do Banido de Baixo, uma cama, duas mesinhas de cabeceira e duas cadeiras. As roupas iam dentro da caixa por cima do milho. Os potes, os alguidares e as louças iam dentro de um cesto de carvalho e um açafate de varinhas de salgueiro, tudo colocado em cima da caixa. O outro carro levava a meia pipa, esta também com algum vinho dentro, mas não ia cheia, a colheita, no Banido de Baixo, não tinha atingido três meias pipas. Levava ainda pela parte de trás da meia pipa a masseira, de pernas para o ar, e por cima desta o escano, meio atravessado.
Os trabalhos da mudança iniciaram-se de manhã bem cedo, com o carregamento de ambos os carros com todos os bens. Os “carreiros” escrevemo-los entre aspas, porque não exerciam qualquer actividade de carreiro, aqui faziam-no em serviço particular, tratava-se, muito simplesmente, de um favor a um amigo, eram o Senhor Malvino e o Senhor Claudino, cada um com a sua boa junta de vacas para puxar aos carros. Antes de iniciarem a tarefa de colocar todos os haveres fora de casa e em cima dos carros, comeram um naco de broa e beberam dois cálices de água-ardente. A mulher de família tinha já preparado, no dia anterior, um açafate com meia broa de pão de milho e meia dúzia de postas de bacalhau frito, para servir a merenda, quando chegassem ao destino, à Eirinha. Antes de iniciarem a partida, tiveram o cuidado de varrer, o melhor possível, toda a casa que acabara de ficar devoluta. Dizem que, deixar a casa de onde se sai sem a varrer muito bem varrida, significa que pode ficar lá, com o lixo, a boa fortuna.
O trajecto foi lento. Partiu-se do Banido de Baixo, quando eram dez horas e um quarto, pela Estrada Nacional 311, até à curva do barro, depois voltou-se à direita, pelo estradão tosco, que sobe a encosta dos montes da Seara, até à Cruz do Muro, nas proximidades da capelinha de Nossa Senhora da Saúde. Aqui entrou-se no caminho velho, que vai em direcção à Pena, sempre a subir. As duas juntas de vacas que puxavam ambos os carros já levavam, a instantes, as línguas de fora e espumavam. Chegados à Pena, há uma ligeira curva à esquerda, e o caminho é quase plano, e de vez em quando desce um pouco, até ao ribeiro depois de passado o lugar da Pereirinha. Novamente uma subida bastante acentuada, até ao centro do lugar de Chacim. Passado o centro e a capela de Santo Amaro, um pouco mais à frente, já passava do meio-dia, iniciou-se a descida para a Eirinha. O caminho era agora a descer, mas tinha que ser feito com o máximo de cuidado e muito lentamente, foi preciso apertar as tarraxas dos carros, para que não empurrassem tanto as vacas, e os solavancos não fossem tão acentuados, pois que, além de estreito e com demasiadas silvas e giestas dos lados, tinha também grandes pedras da calçada desalinhadas, o que provocava fortíssimos solavancos, ao ponto de a mobília quase se escaqueirar toda em pedaços. O vinho, no fundo da meia pipa, de tanto baloiçar, já esguichava pelos poros da cortiça da rolha do batoque.
Eram quase duas horas da tarde, quando a comitiva chegou à Eirinha. A mulher da família, a mãe do Zé, sofreu um ligeiro calafrio. Pareceu-lhe demasiado ermo o sítio, apesar de ainda não ser noite e estar um lindo dia de sol. A expedição era constituída por dois carros, duas juntas de vacas, três homens, uma mulher, um rapaz, uma rapariga e três crianças. Dito de outro modo: o carro do Senhor Malvino, que era tocado por este, e chamava as vacas o seu filho, o Jaime, um rapaz já quase homem, de dezasseis anos de idade; o segundo carro era o do Senhor Claudino, que o tocava, e chamava as vacas a sua filha, a Alice, que tinha quinze anos de idade, e estava já uma mulher feita; o casal em mudança, o marido levava uma taleiga pendurada dos ombros, um dos gémeos, o Bernardo, ao colo, e o Zé pela mão; a mulher levava o açafate com a merenda à cabeça e o outro gémeo, o Maciel, ao colo.
A casa de caseiro da Eirinha é uma daquelas casas rurais, do Entre-Douro-e-Minho, especialmente construídas para albergar caseiros, em regra, de bastante baixa condição económica e social. De um modo geral são constituídas por dois pisos: no primeiro piso, que pode ser ao rés-do-chão, ou formando meia cave, ficam as cortes dos animais e a adega; à frente, a descoberto, fica o quinteiro, onde é colocado mato, que com a chuva e o peso dos animais se transforma em estrume. No primeiro piso fica a habitação propriamente dita, por norma é constituída por duas divisões, uma que é a cozinha, com lareira e um forno, numa esquina, para cozer o pão, a outra é o sobrado, que é a divisão onde são colocadas as camas, normalmente são duas as camas, uma onde dormem os pais, outra onde dormem os filhos; há ainda uma varanda, voltada para o quinteiro, e ao fundo desta, um pequeno quartinho, onde passam a dormir os filhos, quando atingem idade de já não serem convenientes na divisão onde dormem os pais.

Por: Torcato Santiago

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