Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (195)
A Islândia

A Islândia é um país insular que integra o velho continente, a Europa, e, se tomarmos como ponto de referência as coordenadas da sua capital, ele é o mais setentrional de todos. Situa-se no paralelo 64 do hemisfério norte.
Esta minha inclinação para falar de coordenadas vem-me dos tempos em que se ouviam noticiários sobre as guerras da Coreia e do Vietname. Nesse tempo, os beligerantes envolvi-dos naqueles dois conflitos, em particular os Estados Unidos da América, que participaram em ambas, em grande escala, sempre se referiam ao teatro de operações através da menção de cada um dos paralelos. A guerra da Coreia desenvolveu-se em torno do paralelo 38, enquanto que, a do Vietname, teve como cenário o paralelo 17.
Este ano, segunda quinzena de Agosto, decidi-me por fazer uma viagem em torno do paralelo 64.
A Islândia é um país indepen-dente, de pleno direito e como República, desde o ano de 1944. Antes fora colonizada, primeiro pela Noruega e depois pela Dinamarca. À data da sua independência, era já uma es-pécie de protetorado da Dina-marca, e os islandeses dizem, com alguma dose de bom humor, que foram dos poucos povos do mundo que tiraram proveito directo da Segunda Guerra Mundial.
É um país relativamente grande em espaço, com 103 mil quilómetros quadrados de área, e muito pequeno em população, conta apenas 330 mil habi-tantes. Comparativamente com Portugal, é um pouco maior em área e tem apenas 3,3% da nossa população.
Pese o facto de ter passado por uma situação de insolvência quase total, logo no início da crise dos mercados, em 2008, a Islândia apresenta, nos dias de hoje, um conjunto de índices económicos que nos envergonham a nós portugueses.
Vejamos apenas dois desses índices, retirados da internet e com as reservas que se impõem, com-parando três países de referência, a Islândia, Portugal e a Alemanha, são eles o PIB per capita e o índice de desenvolvimento humano (IDH):
O PIB per capita (em dó-lares) é: na Islândia, de 39.223; em Portugal, 23.047; e na Alemanha, 37.935.
O índice de desenvolvi-mento humano (IDH) é: na Islândia, 0,895 (muito ele-vado); em Portugal 0,822 (elevado); e na Alemanha, 0,911 (muito elevado).
Em termos de PIB per capita, a Islândia supera mesmo o da Alemanha e fica, como facilmente se conclui, um bom par de pontos à frente de Portugal.
Pude comprová-lo in loco, o nível de vida é, naquele país, bastante eleva-do de facto. Não ignoro, porém, que o nível de vida resulta da combinação entre índice de rendimentos e custo de vida.
Eu não sei qual é o salário médio na Alemanha, mas sei que em Portugal esse salário médio ronda os oitocentos Euros mensais. Na Islândia, esse mesmo salário médio é de mil e quinhentos Euros mensais.
A questão está em saber se o islandês médio consegue atingir um índice mais elevado de satisfação com os seus mil e quinhentos Euros, do que um português médio com os seus oitocentos. A experiência vivida no local leva-me a concluir que sim.
Se bem que, por exemplo, uma cerveja que aqui se compra num qualquer estabelecimento do sector da restauração, da beira da estrada, por menos de dois Euros, lá, na Islândia, e no mesmo tipo de estabelecimento, a mesma cerveja custa a “módica” quantia de seis Euros. Note-se que não me refiro a produto importado por qualquer dos paí-ses, na Islândia, trata-se de uma cerveja islandesa, e em Portugal trata-se de uma cerveja portuguesa. Neste pequeno particular, ficamos a ganhar!
Deixemos a economia de lado e dediquemo-nos, por algumas linhas, à paisagem, incluindo a paisagem industrial.
Em termos de indústria, o país vive, essencialmente, de dois sectores de actividade, a pesca e o turismo. No que respeita à pesca, esta tem o seu forte no bacalhau e no arenque. No que tange ao turismo, os islandeses tiram grande proveito de dois factores naturais por excelência, os glaciares e os vulcões.
Os glaciares ocupam ma-is de dez por cento de todo o território, sendo o maior deles, o “Vatnajökull”, com 8.100 quilómetros quadra-dos, situado na área sudeste do país.
Apenas um terço do território é terreno arável. Deste terço, somente cinco por cento é cultivado. Todo o restante é utilizado em pasto-reio, bovinos, ovinos e muares, pastam em regime quase livre, ao longo das planícies e das encostas até onde chega a vegetação rasteira.
Ao contrário do que eu pensava, que deveria ser um país de viçosas florestas como aquelas que se vêm em qualquer dos países da Escandinávia, a Islândia não tem floresta. A vegetação arbórea fica-se por um reduzido conjunto de bétulas anãs e pouco mais.
Fiquei com a convicção de que os postes que lá existem em madeira, para suporte de alguns dos cabos de transporte de electricidade, têm que ser forçosamente importados, talvez da Noruega, que é o país que lhe fica mais próximo.
Nas praias, que são mui-tas e extensas, não fosse tratar-se de um território com mar por todos os lados, não se vê qualquer tipo de areia, nem branca nem de qual-quer outra cor. O que se vê nas praias é gravilha de cor escura, exactamente igual àquela que se observa em se olhando para as encostas e para os cumes dos picos das montanhas.
Tudo vulcões: uns, mais antigos, onde a vegetação vai tentando progredir encostas acima; outros, mais recentes, com vestígios de lava escura, a tal gravilha, por todos os lados; outros, ainda mais recentes, estes em actividade, soltando poeira e lava.
Um dos troços da minha viagem foi cancelado devido ao facto de um deles (um dos vulcões), o “Bardarbunga”, se encontrar em actividade ameaçando agravar-se o volume da erupção a qual-quer momento.
Na Islândia, não há auto-estradas. A densidade da sua população não o justificaria de todo. Têm, contudo, uma boa rede de estradas ditas normais, uma delas, a Estrada Nacional n.º 1, que percorri em toda a sua extensão, começa e termina na capital, em Reykjavik, conta quase mil e quinhentos quilómetros de extensão.
O país, embora não pos-sua qualquer tipo de força militar, é membro fundador da NATO. Esta organização, com características de de-fesa, eminentemente militar, foi constituída em quatro de Abril de 1949.
Conclusão: os islandeses são um povo simpático, hospitaleiro e tem um nível de vida superior ao dos franceses e dos alemães. Comparações com a média europeia? É só fazer as contas!
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

* Colaborador
José da Costa Oliveira

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